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[ Um sanfoneiro com alma em forma de música | ]
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Um sanfoneiro com alma em forma de música

06 de Jan de 2008 - 17h18min

Matéria recebida do Dr. Josinaldo Malaquias, brilhante advogado, professor da Universidade da Paraíba e jornalista do Correio da Paraíba onde escreve uma coluna. Estimulado por uma paixão por acordeom (sanfona para eles, nordestinos), comprou uma de nossas “cordeonas” e acabamos ficando muito amigos. Gostou tanto da primeira gaita, que comprou mais duas, sendo uma para presentear o seu amigo e professor de acordeom, Tião Nascimento. Publicou, inclusive, uma matéria no seu jornal traçando um paralelo entre “A Sanfona e o Escapulário” tecendo elogios à minha pessoa bem como ao romance “A Ilha do Escapulário” que minha filha escreveu e autografou na Feira do Livro de Porto Alegre. Nunca é demais saber notícias e curiosidades sobre o mestre Sivuca, um dos melhores acordeonistas do mundo. Na chacoaleada de fole ele é insuperável. Algum dia faremos uma entrevista diretamente com ele.




Ele nasceu Severino Dias de Oliveira no lugarejo chamado Campo Grande, entre Itabaiana e Guarida. Aos 9 anos de idade animava festas, casamentos e outros eventos no interior da Paraíba. Aos 15 foi para Recife (PE) tentar a sorte em programas de calouros em rádios e se deu bem, adotando o nome artístico de Sivuca. Em 1950 chegou ao primeiro sucesso – Adeus, Maria Fulô – em parceria com Humberto Teixeira (sim, aquele mesmo, parceiro de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião). Em 1955, foi morar no Rio de Janeiro, de onde partiu para conquistar Lisboa e Paris. Em 1964 – ano negro para o Brasil – foi morar em Nova York e, ali, fez o arranjo da célebre Pata Pata, de Miriam Mukeba, com quem excursionou pelo mundo até o final dos anos 60. Esse é o resumo da ópera de Sivuca que, aos 75 anos, recebeu o PSonlinebr.com em seu amplo apartamento em Manaíra, em João Pessoa, em companhia da inseparável e bem-humorada Glorinha Gadelha, para uma entrevista exclusiva na qual revela seu deslumbramento pela nova safra de músicos surgidos na Paraíba, no Nordeste e no Brasil. Detalhes? Leia a seguir.

PS - Você está trabalhando muito, compondo muito. Qual o motivo de tanto trabalho?

SIVUCA - O motivo do meu trabalho é, geralmente, além da realização, a maneira que eu encontrei de transmitir a minha experiência para os jovens músicos daqui da nossa terra, que são muitos e bons.

PS - Como você está se relacionando com essa nova geração de músicos não só da Paraíba, mas também do Nordeste e do resto do Brasil?

SIVUCA - Eu parto do princípio de que o corpo envelhece, mas a alma não. E eu estou me dando muito bem com a turma toda. Eu tenho no Rio um conjunto cuja faixa média de idade é 24 anos, todos tocando. Hoje a música deixou de ser sinônimo de cachaça, hoje é uma profissão como qualquer outra. As universidades têm feito um trabalho muito bom com os jovens que querem estudar música. Aqui, por exemplo, o Departamento de Música da Universidade Federal da Paraíba, na cidade de João Pessoa, é excelente, e está vindo aí uma juventude que, além da vocação, tem o gênio para ser músico.

PS - É uma contradição: enquanto está falando sobre esse celeiro de talentos que você diz existir nas universidades, na nova geração, isso não se reflete por exemplo no rádio, na televisão. Como você analisa essa questão da mídia não passar essa coisa de qualidade que nós temos?

SIVUCA - É muito simples, a mídia não está atrás de qualidade, está atrás de faturar, de maneira que o que está na mídia não reflete a realidade musical de nosso país como um todo. E não é só no Brasil não, esse fenômeno é no mundo todo.

PS - Como você analisa a música instrumental no Brasil? Houve evolução nas últimas décadas? Há algum som novo que você distingue nesse processo de criação no Brasil?

SIVUCA - Não, não há necessariamente som novo, há o som imitativo que são os sons da guitarra elétrica, que vêm dos Estados Unidos. E nós temos o mau costume de absorver o que há de pior lá. Lá mesmo os músicos detestam a música rock e esses negócios. Na realidade isso é a anti-música. Felizmente temos uma juventude, eu diria sadia, que estuda música e que toca. Hoje mesmo (quarta-feira, 29 de junho de 2005) no ensaio eu não vi nenhum músico com mais de 30 anos, todos excelentes profissionais.

PS - Mas nesse contexto do modismo brasileiro, você acha que a população tem conhecimento do que está sendo feito? Qual é a palavra que você tem levado para a população quando tem oportunidade, para que se possa distinguir o bom trabalho desse péssimo trabalho que está na mídia?

SIVUCA - Não é palavra, eu tenho uma guerra, uma batalha que é levar esse instrumento chamado sanfona ou acordeon a fazer parte, a ser legitimado como instrumento sinfônico. Esse é o meu objetivo que, aliás, está caminhando muito bem. Há 30 anos atrás, se falasse, por exemplo, num disco de sinfônica com sanfona, seria uma absurdo e eu acabo de fazer um lá em Recife, com a sinfônica do Recife que, diga-se de passagem, é excelente.

PS - Dá para você descrever em palavras esse sentimento que teve de gravar com uma orquestra sinfônica? Que quem assistiu achou um espetáculo maravilhoso.

SIVUCA - Há um sentimento artístico e mais do que artístico, sentimental. Eu morei em Recife 10 anos, todos os meus professores de teoria musical eram da Sinfônica de Recife, e eu escutei pela primeira vez a Quinta Sinfonia de Beethoven na Orquestra Sinfônica do Recife, com o maestro Cícero Fittipaldi. Isso calou fundo em mim, de maneira que quando chegou a hora de fazer a gravação, eu não só optei, como fiz força para que a gravação fosse feita em Recife. E aconteceu, felizmente.

PS - Você acha que a Paraíba tem lhe dado o merecido reconhecimento pelo seu trabalho, pelo fato der você ter divulgado tanto a Paraíba pelo mundo afora?

SIVUCA - Eu tenho recebido, sim. A Paraíba tem me dado muito apoio. Apoio emocional, apoio artístico, em completo. Eu me sinto na obrigação de, em vez da Paraíba me dar, eu dar para a Paraíba, porque é um estado pobre. É pobre de dinheiro, mas é rico em almas e rico, acima de tudo, em manifestação musical. A Paraíba é um celeiro musical para o Brasil todo. Inclusive, isso desde 1938, quando se fundou a Rádio Tabajara, e a orquestra cresceu tanto que competiu com as melhores orquestras do mundo.

PS - Como você analisa o fato de não termos, na grade curricular, principalmente nas escolas públicas de 1° e 2° graus, aulas de música, não termos uma cadeira específica de música?

SIVUCA - Eu lamento profundamente não existir isso. Eu morei 13 anos nos Estados Unidos e não passei por uma escola que não tivesse um departamento musical bem aparelhado. E toda escola tinha aula de canto coral naquele tempo, aula de “orfeão”, que Villa Lobos quis implantar no Brasil, mas não conseguiu porque, infelizmente, a mídia, e de resto o Estado, dá muito mais atenção ao esporte, notadamente o futebol. Quer dizer, se a música do Brasil tivesse 3% do apoio da mídia que tem o futebol, o quadro seria completamente diferente.

Fonte:

Paulo Santos (Entrevista )
Rogéria Pontes (Imagens)
Aline Lins (Colaboração)




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